Apresentação Curso de Fotografia – Foto em Foco

Composição é o primeiro ato de fotografar. Compor não significa apenas enquadrar a imagem. Dentro do imenso universo da fotografia e seus inúmeros segmentos, para não complicar no começo vou tratar apenas de dois tipos de fotos com características bem distintas:

  • As fotos de pessoas em que é possível mover o assunto fotografado e os objetos ao redor e usar luz artificial pura ou como complemento da luz natural.
  • Fotos de natureza, em que não é possível mudar nada de lugar e basicamente tem que se usar a luz natural.

Ao fotografar pessoas em um estúdio o fotógrafo determina a posição da pessoa, seu vestuário, a maquiagem, organiza os objetos ao seu redor e o fundo. Ele compõe fisicamente a imagem e dirige os modelos para alcançar a expressão corporal que ele procura.

Outros fotógrafos, como Sebastião Salgado e Steve McCurry, fotografam as pessoas no local onde vivem, ao ar livre,  em campos de refugiados e compõe a imagem rapidamente com apenas uma leve intervenção de iluminação. Esse processo para um fotógrafo experiente é feito quase instintivamente, ele faz a composição em segundos.

Esta foto correu o mundo como capa da National Geographic em junho de 1985. O fotógrafo Steve McCurry tirou essa foto de uma menina afegã de 12 anos em um campo de refugiados no Paquistão, em 1984, durante a ocupação soviética do Afeganistão. Os pais haviam sido mortos em um ataque de helicópteros soviéticos forçando ela, os irmãos e a avó a fugirem para o Afeganistão.  A garota da foto permaneceu sem identificação até ser localizada em 2002, 18 anos depois, por uma equipe da National Geographic, no Afeganistão. Esta foto transcende qualquer explicação. Mas observe a composição de cores, a posição do corpo, de lado, não de frente, a expressão dos olhos verdes, o rosto sujo, a cor do manto rasgado emoldurando o rosto em contraste com a cor da parede de madeira no fundo desfocado, a mesma cor dos olhos:  tudo compõe a foto de maneira perfeita.

Foto de Steve McCurry – Menina Afegã – Kodachrome color slide film, com uma câmera Nikon FM2 e uma lente Nikkor 105mm F2.5

A cor páprica do manto é complementar à cor verde dos olhos, do tecido que aparece embaixo do manto rasgado e da parede do fundo e talvez seja esse contraste entre cores complementares um dos elementos importantes da beleza desta foto (teremos uma aula específica sobre cores complementares). A luz no rosto e no fundo também é perfeita, produzindo uma suave tridimensionalidade. Mas há algo mais nos olhos dela, algo que transcende a imagem, que nos transfere uma energia, um sentimento, que nos provoca um sensação de assombro.

Essa é a característica dos grandes fotógrafos: as fotos carregam um significado, é como se a alma da pessoa estivesse ali. É quase como se os índios tivessem razão em não querer serem fotografados, por medo de lhes roubarem a alma. Eu tenho conhecimento para lhes ensinar todas as técnicas de fotografia, inclusive 3D, mas eu não tenho como ensinar esse algo a mais que faz toda a diferença, porque eu estou longe de atingir este patamar que transcende e muito a técnica. Isso só os grandes fotógrafos podem ensinar (o Steve McCurry oferece regularmente workshops de duas semanas viajando e fotografando em vilarejos na Ásia).

As fotos de natureza tem uma natureza distinta. Ao fotografar uma cachoeira o fotógrafo não tem como mudar rio, pedras e árvores de lugar. O fotógrafo é o único que pode se mover, subir montanha, em árvores, entrar dentro do rio, se pendurar no abismo. Então a primeira coisa que ele faz é examinar criteriosamente o local, andar em volta e fazer suas escolhas:

  • Escolher a perspectiva, o ângulo da foto. De baixo para cima, na linha dos olhos, de cima para baixo, de lado, de perto, de longe.
  • Estudar quais elementos vão compor a imagem e o quanto daquela cena deve entrar no quadro. Podemos usar desde uma ultra-grande angular até uma tele objetiva ou então uma lente zoom.
  • Decidir o quanto da imagem ficará em foco e onde ficará o ponto focal.o caso de uma pessoa, mesmo fora do estúdio, podemos usar flash para preencher as sombras no rosto ou grandes rebatedores de luz (um tecido branco ou prateado esticado em uma armação usado para rebater uniformemente a luz natural ou de um flash no assunto fotografado) ou ainda um suavizador (o mesmo rebatedor branco, só que colocado entre a fonte de luz e o assunto fotografado, para suavizar a luz) ou uma combinação de todos. Isso será detalhadamente explicado em várias aulas.

Para fotos de natureza, no entanto, as opções de iluminação e suavização de luz se restringem a fotos macros de flores, de insetos ou animais próximos, dentro do raio de alcance do flash, de apenas uns poucos metros. Em paisagens, o melhor a fazer é esperar até que o sol atinja um ângulo da iluminação favorável, provocando belos efeitos de luz lateral, por exemplo, ou simplesmente que o sol entre atrás de uma nuvem, reduzindo contraste ou ainda que venha uma tempestade, para a iluminação ficar dramática e limpar a fumaça e a poeira do ar

Esse processo todo de composição e medição de luz, com a prática, é feito em alguns poucos segundos. Mas quando se trata de fotos de natureza, dependendo do assunto uma foto pode levar horas, dias ou meses de paciência até que se consiga uma situação favorável. Quem tem os Blurays dos incríveis documentários da BBC, Planet Earth e Life, sabe bem o que estou falando.

Seguindo a seqüência natural de eventos do ato de fotografar – primeiro compor, depois medir a luz – o curso será divido em 3 etapas:

  1. A primeira, será o estudo da composição e seus elementos, na qual entenderemos como o olho passeia pela imagem, os pesos e equilíbrios de forma, de volumes, dos contrastes de cores e de luz e sombra, a influência do foco e da profundidade do foco, as perspectivas e distancias focais de lentes.
  2. A segunda, será o estudo da luz, dos tons e das cores, na qual veremos técnicas como a do Sistema de Zonas (Zone System), criado por Ansel Adams para a foto preto e branco, adaptado ao cromo colorido por Charles Campbell e agora em novíssima perspectiva, com os sensores digitais, usando a leitura de histogramas.
  3. A terceira, será de técnicas avançadas de fotografia, como obter uma foto HDR (High Dinamic Range) que não pareça artificial, as técnicas de fotos panorâmicas fundindo uma seqüência de fotos em uma só, as fotos em 3D com uma câmera comum, as fotos macros e macros em 3D, entre outras técnicas que exigem domínio completo das duas primeiras partes.

Há muito de instintivo na fotografia, especialmente na fotografia do “instante decisivo” de Cartier-Bresson, em que você compõe e fotometra em uma fração de segundos para não perder o instante, mas não se consegue atingir um bom nível sem estudo. Sem conhecimento, apenas com instintos, alguém consegue ser apenas um mero batedor de fotos, um escravo da tentativa e erro e vai aprender muito pouco somente com a experiência prática.

Fotografar é diferente de bater fotos. Fotografar significa entender composição de formas, de luz e de cores, como um pintor, entender profundamente os recursos de sua câmera fotográfica e ser o mestre, ter o controle da situação.